Anderson… Dez anos depois

 

Anderson 2

Domingo, 2 de julho, é aniversário de dez anos da contratação de Anderson, o jogador que melhor representa a experiência do Manchester United com jogadores sul-americanos.

Ia escrever um post sobre o jogador que teve bons momentos, foi apresentado junto com Tevez, fez dois gols na semifinal da Champions League de 2011 e, claro, cobrou o sexto pênalti na final de 2008.

Foi quando lembrei que já escrevi. Foi para a Folha, em 2014, quando ele estava prestes a deixar o clube.

Então, reproduzo abaixo. O link original está aqui.

“I

O ano era 2007. Sir Alex Ferguson analisava os prós e contras de investir 18 milhões de libras nele (R$ 68 milhões na cotação atual). Era um preço alto, mas o garoto de 19 anos prometia muito. O argumento final foi dado por Martin Ferguson, irmão de Alex e chefe dos olheiros em Old Trafford.

“Vale a pena. Ele é melhor do que o Rooney.”

O negócio foi fechado.

II

O ano é 2014. Em reunião com o executivo-chefe Ed Woodward, Louis Van Gaal deu a ordem. O Manchester United precisava se livrar de Javier “Chicharito” Hernandez, Shinji Kagawa e do meia comprado sete anos antes. As negociações deveriam acontecer o mais rápido possível.

Chicharito foi para o Real Madrid por empréstimo. Kagawa voltou para “casa “e assinou com o Borussia Dortmund, onde havia sido feliz. Apesar de apenas os clubes da Premier League terem gasto mais de R$ 3 bilhões na janela de transferências, ninguém se interessou pelo terceiro indicado por Van Gaal.

Onde tudo deu errado?

III

Anderson era o próximo Ronaldinho Gaúcho, o futuro camisa 10 da seleção brasileira. Mais um craque made in Brazil destinado a grandes feitos no futebol europeu. Em algum momento nesta trajetória, ele se perdeu.

Talvez Alex Ferguson tenha sido o primeiro a perceber que a Anderson faltava alguma coisa para “ser melhor do que Rooney”. De meia avançado, o transformou em volante.

“Alguns atletas não conseguem ter a cabeça para se adaptar a uma função em que precisa ter preocupações táticas. Anderson é um jogador muito intuitivo. Trabalha apenas com a intuição dele e com muito talento. Mas às vezes falta alguma coisa”, disse Mano Menezes ao blog, citando também que ele apresentou “problemas físicos.”

O recado do treinador do Corinthians é simples. A consciência tática de Anderson é escassa. Não há maturidade futebolística.

Foi com Mano no comando que o menino de 17 anos anotou o gol da vitória gremista na batalha dos Aflitos, em 2005.

Foi o grande momento da carreira dele no Brasil. A partir daí, veio a transferência para o Porto, trampolim para jogar no  United. Anderson parecia estar cumprindo o destino. A primeira imagem foi ele chegando a Carrington, centro de treinamento do clube, usando terno, tênis, boné e dreadlocks.

Jogadores brasileiros costumam ter dificuldades em Manchester. A noite da cidade tem várias opções, mas os boleiros não estão lá para isso. Invariavelmente, não aprendem a língua para conversas fluentes. Sofrem com o frio. A chuva. Quase nunca moram perto do centro. Residem em cidades vizinhas e pacatas, como Altrincham ou Cheshire.

“Sócrates costumava dizer que as diferenças culturais sempre atrapalham muito os jogadores do Brasil que vão jogar no Reino Unido, não importando o quanto eles sejam talentosos”, opina Andy Mitten, colaborador da revista britânica FourFourTwo e editor do United We Stand, um dos principais fanzines dedicados aos Diabos Vermelhos.

Anderson jogou bem nas duas primeiras temporadas, mesmo sem se firmar como titular absoluto. Foi campeão da Champions League de 2008. Entrou nos minutos finais do tempo normal da decisão contra o Chelsea e acertou uma das cobranças na disputa de pênaltis. Teve duas grandes atuações nas semifinais do torneio em 2009, contra o Arsenal.

“É tudo o que eu quis. Foi por momentos como esse que vim jogar no Manchester United”, comemorou.

Na decisão em Roma, diante do Barcelona, foi escalado como titular. O time inglês acabou derrotado e o brasileiro, substituído no intervalo após 45 minutos apagadíssimos. Deu apenas três passes. Paul Scholes entrou em campo faltando aos 25 do segundo tempo e fez 25.

Foi o começo da queda. O argumento dos problemas físicos, feito por Mano Menezes, começou a aparecer. Anderson teve fratura, lesões musculares. Sempre que começava a ter uma sequência de jogos, acontecia alguma coisa. Causava estranheza a relutância que ele tinha em chutar no gol. Sir Alex Ferguson o recuou para a função quase de primeiro volante.

Durante esse período, sua forma física chegou a ser constrangedora em alguns momentos. Comentários dentro do clube são que sua atitude não costuma ser das mais positivas.

Anderson jamais se encaixou no padrão comum de atletas profissionais de futebol. A história mais famosa é quando Cuca o flagrou falando em dois telefones celulares ao mesmo tempo na concentração e foi questioná-lo se não achava aquilo demais. Acaso aquele menino acreditava ser melhor que os outros?

“Sim, eu sou. E se você me colocar para jogar vai ver isso.”

É o mesmo Anderson que, muito jovem, já despertava a cobiça de empresários. Com meros 13 anos, exigiu US$ 2 milhões para assinar com um deles.

Se tudo tivesse acontecido como o esperado, ele teria sido titular do meio-campo brasileiro na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010. Não é convocado desde o vexatório empate em 0 a 0 com a Bolívia, em 2008, no Engenhão, pelas eliminatórias.

Em Manchester, é cada vez mais raro a torcida de Stretford End (a que mais empurra a equipe em Old Trafford) cantar a música de “Ando”, a que diz que ele (em tradução livre) “caga na cabeça de Fábregas”. Teve alguns flashes que animavam os que acreditam em seu potencial. Ajudou a destruir o Arsenal na goleada por 8 a 2, em 2011.

Isso não explica tudo, mas Anderson ganhava peso cada vez que ficava afastado por lesão e demorava para voltar à forma física necessária para brigar por uma vaga como titular.

“Ele encontrou companhia na pequena comunidade brasileira da região, que frequenta alguns poucos restaurantes. Como é um sujeito muito sossegado, boa gente e fácil de conviver, as pessoas queriam a sua companhia”, completa Mitten.

Funcionários do Manchester United e Sir Alex Ferguson ficavam cada vez mais descrentes com as promessas de que o jogador estava “quase pronto” para voltar. Quando chegava ao peso próximo do ideal, o técnico se mostrava relutante em colocá-lo em campo. E quando isso acontecia, a atuação do brasileiro era decepcionante. David Moyes o emprestou para a Fiorentina. Ele mais uma vez deixou a desejar.

Anderson deveria ser um dos grandes nomes do futebol na sua geração. Aos 26 anos, ainda tem tempo, mas a descrença aumenta cada vez mais. Ele cresceu para ser um dos grandes jogadores do planeta e chegou a um dos maiores clubes do mundo. O mesmo que deve dispensá-lo, de graça, em julho de 2015.”

 

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