Uma noite, open bar, Heinekens e Denis Irwin

Era fevereiro de 2012 e eu estava em um dos corredores de Old Trafford, após clássico contra o Liverpool. Aquele em que Suárez se recusou a apertar a mão de Evra. Passei em frente a uma porta. Olhei para o lado. Denis Irwin e Norman Whiteside esperavam pelo elevador. Antes que eu pudesse tomar qualquer atitude, o ex-lateral desceu pelas escadas, com pressa para participar do pós-jogo da MUTV. Norman, preguiçoso, esperou. Consegui ir lá, trocar rápidas palavras e a foto que tive vergonha de tirar com Sir Alex, cliquei com Whiteside.

Do time que esteve em campo em Barcelona, no 26 de maio de 1999, Irwin sempre foi o mais discreto. Talvez só Ronny Johnsen rivalizasse. O norueguês ficou bem menos tempo em Old Trafford (1996-2002). Denis foi contratado em 1990. Só foi embora em 2002, aos 36 anos. Dentro de campo, eficiente. Fazia o simples e correto. Ferguson disse certa vez que ele era o típico jogador “8 out of 10”. Sempre atuava bem. Chegou ao clube depois de quase tirar o emprego de Sir Alex. Na semifinal da FA Cup de 1990, o Oldham (de Denis Irwin) fez o Manchester United suar sangue. Após empate em 3 a 3, foi necessário replay, vencido pelos Reds na prorrogação, graças a gol de Mark Robins. A lenda é que, se o United não ganhasse aquele título, o técnico não continuaria no comando da equipe. História até hoje negada por Sir Bobby Charlton e o então chairman, Martin Edwards.

Irwin fugiu tanto dos holofotes que alguns fatos da sua carreira são esquecidos. Jogava nas duas laterais, embora tenha se firmado na esquerda. Várias vezes, até o aparecimento de Gary Neville, teve de ser deslocado para a direita, para quebrar o galho quando a equipe não podia contar com Paul Parker ou Clayton Blackmore era escalado no meio-campo. Até Beckham tomar conta da função, era o principal batedor de faltas do time. Sim, Cantona e Giggs, assumiam o papel, esporadicamente. Mas o número um na lista de Ferguson, especialmente quando a bola estava próxima à área adversária, era Denis Irwin. E, a partir do momento da aposentadoria de Eric, em 1997, se tornou o batedor oficial de pênaltis. Só desperdiçou um, contra o Aston Villa, em Old Trafford, em 1999.

A escolha do irlandês pela DHL (uma das patrocinadoras do United) para excursionar por Rio e São Paulo com a taça da Premier League, era natural. Lenda do clube, 368 partidas disputadas, sete títulos da liga, três FA Cups, uma Copa da Liga, uma Recopa Europeia, um Mundial de Clubes e a Champions League de 1999. Pessoa que não gosta de se envolver em polêmicas e tem jogo de cintura suficiente para fugir de perguntas capciosas.

Como o Mundial de 2000, no Rio de Janeiro, por exemplo. Tenho amigo na imprensa que acompanhou o United no torneio. Certa noite, os jogadores foram liberados para irem a boate na Zona Sul. Por volta das 4 horas da manhã, esse jornalista resolveu ir embora. Havia um loiro sentado na calçada, cercado por mar de latas de cerveja.

Era David Beckham.

Mesmo no VHS (sim, faz tempo) do season review da temporada 1999/2000, o que mais apareceu a respeito da passagem do time pelo Brasil foi os jogadores no mar, na piscina, brincando de futevôlei na praia. Mesmo assim, politicamente, Irwin jurou que, para o elenco, o título do torneio, era “extremamente importante”.

Faz parte, não é?

Não se pode perder a oportunidade de estar ao lado de uma lenda do Manchester United. Ainda mais porque, depois da entrevista, ele permaneceu no local, batendo papo. Com open bar no evento e Heineken à vontade (God bless DHL!), Irwin ficou mais de uma hora jogando conversa fora, mais solto e falando sobre os anos gloriosos no maior clube de futebol do planeta.

Primeira vez no Brasil depois de 2000, Denis?
Sim, primeira vez.

Está se divertindo?
Muito. Fui no Cristo Redentor ontem (30/10) e assisti a um jogo do Flamengo (contra o Goiás, pela Copa do Brasil) pela televisão. Deu tempo para fazer algumas coisas. Brasil é um país apaixonado por futebol. Leva muito a sério. Estou gostando. Voltei ao Maracanã, onde joguei em 2000. Estádio impressionante. Já era assim antes. Mas está diferente.

O que se comenta no Brasil até hoje, a respeito da passagem do United pelo Rio de Janeiro, em 2000, foi que o time também se divertiu muito naquele Mundial…
Não (rindo). Nós levamos a sério. Tivemos até de abrir mão de jogar a FA Cup naquela temporada. O problema foi que perdemos o primeiro jogo, para o Vasco. Depois disso, recebemos uma folga e conseguimos ìr à praia, fazer algumas coisas. Depois, empatamos com o time mexicano, Necaxa e ganhamos dos australianos… Eram de Sydney?

Melbourne.
Melbourne, certo. Foi quando Sir Alex deu chance a vários jogadores. (Nota do blog: aqui, a memória trai Irwin. Na verdade, o United estreou empatando em 1 a 1 com o Necaxa, jogo em que Beckham foi expulso. Depois perdeu para o Vasco e derrotou o Melbourne).

Há uma visão, creio que não apenas no Brasil, mas nos países sul-americanos, que os clubes europeus, especialmente britânicos, não levam o Mundial de Clubes tão a sério. É verdade?
Não. A importância é muito grande. Todos querem ganhar. Mas há algumas diferenças, não é? Para os europeus, é uma viagem longa, no meio da temporada. Para os sul-americanos, é no fim. Ganhamos do Palmeiras (em 1999) e tivemos de ir ao Japão. Os times chegam em cima da hora, precisam se adaptar ao fuso horário… Há série de fatores, como estar no meio também da Champions League.

Você leu a biografia de Sir Alex Ferguson?
Não. Ainda não li. Pretendo. Saiu faz pouco tempo, na semana passada. Ainda não consegui.

Ele escreve que houve um jogo, não me lembro o ano, em que você cometeu um erro e Bergkamp marcou para o Arsenal. Perguntado sobre o lance, disse que você estava há dez anos no clube e era a primeira falha que cometia, então podia ser perdoado. Alguma vez recebeu o hairdryer treatment?
Hahaha. Um erro que as pessoas cometem é pensar que era algo comum, que acontecia toda semana. Não era assim. Não era algo regular, que ocorria todos os meses, por exemplo. Mas quando vinha, a força era impressionante. Se você não chegava ao alto padrão que ele esperava, acontecia. Uma exigência comum quando se está em clube como o Manchester United. Mark Hughes disse que Cantona foi o único jogador a não receber o hairdyer. De resto, todos os outros foram alvos, em algum momento.

Mas você sabia quando ia ser a vítima?
O jogador sabe quando não está bem em campo. Quando isso acontece e o treinador exige o máximo, pode esperar a reação.

Nós estamos assistindo a uma das Premier Leagues mais imprevisíveis nos últimos tempos. Há analistas na Inglaterra que consideram até mesmo a possibilidade de o United não ficar entre os quatro primeiros. Acha isso possível?
O clube vive um período de transição e David Moyes ainda está se adaptando ao clube. Eu acredito que o Manchester United vai brigar pelo título. O time está invicto em seis partidas. Eu concordo com você. É campeonato que está imprevisível e lideram as equipes que não trocaram de técnico (Arsenal e Liverpool). José Mourinho está de volta ao Chelsea e os Spurs gastaram todo o dinheiro recebido com a venda de Gareth Bale.Também há o City. Mas vejo o United crescendo para brigar pelo título. Precisamos lembrar que, tradicionalmente, o time fica mais forte depois do Natal. Costuma ser assim. Então, vamos esperar. Os últimos 23 anos foram fantásticos para o Manchester United e fizeram crescer a história do clube. Por isso que estamos fazendo este tour.

Como era jogar na mesma equipe de Roy Keane quando ele estava no seu darkest mood? E você atuou com ele no clube e na seleção…
Roy foi o melhor com quem joguei. Jogador fantástico. Também atuei quatro anos com Bryan Robson, que tinha o mesmo espírito. Foram os melhores.

E Keane era um líder…
Um líder fenomenal, assim como Robson era.

Na autobiografia, sir Alex diz que a parte mais difícil do trabalho era dizer para um jogador que havia sido leal a ele por anos, que era hora de sair, de ir para outra equipe. Você se encaixa na descrição de quem foi fiel à causa por muito tempo. Foi difícil ouvir ser hora de mudar de ares?
Eu sabia que estava chegando a hora. Nos últimos seis meses antes da transferêcncia, não havia jogado muito. Então, imaginava que não continuaria. Tinha 36 anos e é normal. Não encarei como um problema. Atuei por 12 anos em um clube top do mundo. Sir Alex não permaneceria tanto tempo no cargo se não soubesse falar para alguém quando era o momento de sair. O Manchester United é maior que os jogadores.

Muitos acreditam que o Manchester United, hoje em dia, é uma marca global, voltou a ser campeão, por causa de Eric Cantona. Ele teria sido o catalisador deste momento. Concorda com isso?
Concordo. Se você olhar a história, o Manchester United ganhou a FA Cup em 1990, a Recopa em 1991 e a League Cup em 1992. mas para ganhar a Premier League, é preciso consistência e de jogadores especiais. Cantona foi a peça que faltava no quebra-cabeças. O clube cresceu em confiança depois da chegada dele e da conquista da liga em 1993. Não olhou para trás desde então. Cresceu o desejo de vencer, a habilidade do elenco… Você precisa de jogadores como Eric. O desenvolvimento foi notável após a chegada dele e foi parte muito importante da história do Manchester United. Diria que ele foi vital.

26 de maio de 1999. Clive Tydesley disse as imortais palavras: “Manchester United always score”. Por quê? Por que o time tem essa habilidade de, nos minutos finais, achar o gol decisivo? É força mental? É medo dos adversários?
Está arraigado no clube. Sir Alex sempre insistiu que a gente tentasse até o fim, não importando a situação. Keep going. Believe. A Premier League é o campeonato nacional que mais exige fisicamente dos elencos. Às vezes, é difícil. Em 1999, por exemplo, estávamos disputando três títulos ao mesmo tempo. Mas é uma crença que está dentro do clube, de nunca desistir.

E aquela história de que Schmeichel e Keane não se davam bem e, certa vez, na pré-temporada, os dois saíram no braço? No dia seguinte, Schmeichel estava com o olho roxo…
Você parece saber mais do que eu…

É verdade?
(rindo) É comum que alguns jogadores não sejam amigos.

Mas Keane parecia ter mais problemas do que o normal com alguns colegas, não é? Como Teddy Sheringham, por exemplo.
Você que está dizendo…

Está na biografia de Keane.
Está? Eu não li.

Pô, Denis. Você precisa ler mais…
Haha. Eu não gosto de ler livros sobre futebol. Prefiro ler sobre outras coisas. Mas Keane foi um jogador espetacular e que tem personalidade forte.

Não lê nenhum livro sobre futebol?
Não é minha leitura favorita. Acho que li duas biografias de futebol. Uma de Tony Cascarino…

Full Time.
Sim. Muito bom. E outra sobre Paul McGrath.

Back from the Brink.
Sim. Você leu?

Li.
Grande história.

McGrath realmente bebia o quanto está relatado no livro?
Sim. Big Paul bebia muito para qualquer padrão que você pensar.

Mas agora ele está bem…
Sim. Felizmente.

E aquela expulsão em Anfield em 1999? (Contra o Liverpool. Manchester United liderava por 2 a 0 e Irwin foi expulso. Partida terminou 2 a 2)
Ah, não. Você lembra disso?

Claro que sim. Foi a única da sua carreira?
Foi. E me custou uma final da FA Cup. Por causa deste cartão, não joguei contra o Newcastle.

Você disse alguma coisa para (o árbitro) David Elleray após a expulsão?
Nada. Não disse nada a ele.

Mas Sir Alex estava furioso. Disse que se o United perdesse o título inglês, seria culpa de Elleray. Não aconteceu nada para você ser expulso.
Absolutamente nada. Ninguém entendeu.

Seu envolvimento com o clube não acabou. Você é comentarista da MUTV, não é?
Sim. Eu participo de programas ou alguns eventos em Old Trafford. Acredito que muitos jogadores querem manter essa ligação com o clube mais marcante que tiveram na carreira.

Está surpreso pela quantidade de torcedores do United no Brasil e na América do Sul em geral?
Não, na verdade. Talvez não tivesse ideia da popularidade. Mas as pessoas vêm conversar e conhecem a história do clube. É um relacionamento muito recompensador para mim.

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3 Respostas para “Uma noite, open bar, Heinekens e Denis Irwin

  1. Muito boa a entrevista Alex! Se fosse eu, talvez perguntaria se ele ficou surpreso com o Palmeiras em 1.999, que jogou melhor, se impôs, mas perdeu na falha do Marcão! Abs

    • Na verdade, foi perguntado, Glauco. Não por mim. Eu só coloquei as perguntas que eu fiz. Mas ele elogiou o time do Palmeiras e disse que o United levou aquele jogo muito a sério.

  2. Pingback: Manchester United | Blog DHL

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