Como pensa David Moyes?

O trecho abaixo é do livro Nowhere Men, de Michael Calvin. Fala sobre a vida dos olheiros e descobridores de talentos no futebol. Há um trecho que revela um pouco sobre a mente de David Moyes a respeito de contratações e revelações de atletas. É um insight muito interessante sobre como funciona a mente do sucessor de Alex Ferguson. Vale a leitura.

“David Moyes não é homem de tomar liberdades. Desenvolveu aguçado senso de respeito. A confiança dele, quando obtida, é de importância imensurável. O profissionalismo é impecável. O olho para o detalhe é agudo. A capacidade de trabalho é prodigiosa e sua ira, é melhor evitar.

Tivesse ele entrado no Centro de Treinamento Finch Farm naquela quarta-feira úmida, ficaria pouco impressionado. Era ruim o bastante para um estranho abrir pesada porta que tinha sinal ‘somente pessoas autorizadas’ e entrar normalemnte. Passagem que levava a sequência de quatro escritórios que simbolizavam a continuidade da década do Everton sob o controle do escocês. Permitir alguém como eu no ponto nevrálgico de um clube que consistentemente consegue resultados melhores do que o esperado, apesar das restrições financeiras, era surpreendente.

Meu guia, James Smith, revelou a simplicidade comovente de um sistema que muitos tentam copiar. Apropriadamente, dada a natureza da minha visita, Moyes estava numa viagem de observação pela Europa. Felizmente, por causa da minha vulnerabilidade, Duncan Ferguson, que anteriormente ficou a cargo de expulsar intrusos indesejados, não sabia da minha presença. Estava atirando finos dardos amarelos num alvo azul colocado na parede da sala de jantar dos jogadores.

Smith, chefe do scouting, estava livre para revelar a ciência por trás da Escola de Ciência. Ele trabalhava com Moyes desde 2003. Um graduado em ciências do esporte na Universidade de Londres South Bank, que lecionou nos Estados Unidos e começou por baixo no Coventry’s City Community Scheme, estava na primeira onda de analistas de performance que surgiram no futebol no início da última década.

Ele foi promovido após cinco anos, quando Moyes teve a percepção de reconhecer o valor da integração de diferentes valores no recrutamento de atletas, abrançando a tecnologia.

‘Acho que David  foi o único técnico fora da Premier League a usar análise software de análise de performance, quando estava no Preston’, se lembra Smith. ‘Não é incomum que ele queira ter as melhores informações e estar pronto para o jogo. Treinadores não deixam pessoas entrarem nesse mundo de maneira muito fácil. Muito a respeito do trabalho é relacionamentos e confidencialidade, porque você está trabalhando muito próximo a eles. Moyes não queria exatamente mudar todo o sistema de recrutamento, mas fazê-lo evoluir. Queria alguém com um background acadêmico.’

Smith opera a partir da sala de recrutamento. O que tem lá é altamente secreto. Representa a propriedade intelectual mais valiosa do Everton. Toda a estratégia de transferências de Moyes está mapeada numa sucessão de quadros espalhados pelas quatro paredes. É a visualização de um princípio, a destilação de uma filosofia. Sublinha a natureza colegiada na forma como encara o futebol e o brilhantismo clínico das suas habilidades de management.

Tudo está compartilhado. Smith tem cinco mil relatórios guardados online sobre mil possíveis contratações. Tudo aquilo é um blueprint, que mostra a cultura, aspirações e situação financeira do clube. Uma série de conferências de olheiros é feita para analisar tendências e homogeneizar os mecanismos usados para fazer os relatórios.

Cada scout deve avaliar todos os jogadores com menos de 24 anos nos jogos em que for assistir e dar notas a eles em aspectos definidos de performance. Moyes produziu o que ele mesmo chama de “MOT test”, onde jogadores são julgados a partir de um checklist com 12 quesitos para cada posição.

O objetivo da otimização é ter pelo menos 50 relatórios do principal alvo no mercado, escrito por 10 ou 12 scouts. O comprometimento do treinador inspira lealdade e, deve ser dito, admiração. Steve Brown, que substituiu Smith no papel de principal analista de performance, elogia o “brilhantismo” de Moyes na montagem de estratégias táticas. As mesmas qualidades que fazem dele um técnico de ponta – segundo Brown ‘ele é tão detalhista, pensativo e metódico no seu trabalho’ que não tem como não ser um bom julgador de jogadores. As disciplinas complementares formam a preparação para planos de jogos em diferentes escalas, a partir de dados detalhados do adversário, coletados pelos scouts.

Steve Round, assistente-técnico de Moyes, tem um papel fundamental na compliação dos dados, ao lado do treinador A principal estratégia, que leva muitas horas para ser criada, é resumida numa curta e mais acessível versão para os jogadores, contemplando, a forma do adversário no torneio, análise de bolas paradas e como saem os gols. Round entra no processo de contratações depois de o auxiliar Jimmy Lumsden ter acompanhado partidas indicadas pelos scouts e sancionadas pelo chefe dos scouts, Robbie Cook. De novo, o princípio da coletividade entra em prática.

Smith admite: ‘Quando comecei no clube, não sabia muito, então aprendi com Moyes, com Steve e outras pessoas do estafe. No primeiro trabalho, eu fazia todo o pré e pós-jogo em vídeo, então passei muito tempo ouvindo e mostrando coisas para eles, conversando sobre aspectos importantes. Participando de todos as reuniões da equipe, viajando com eles, foi uma chance enorme para aprender com David.’

‘Então, eu passei a ter ideias a respeito de jogadores aprendendo com ele. Sei o que procura, o que está pensando. Meu papel é ser um link entre o treinador e os scouts. Todas as informações são levadas para o recruitment room. Qualquer um da comissão pode entrar a qualquer hora. Possibilita ao técnico estar sabendo sempre do que está acontecendo. Isso resume muito sobre o que eu penso sobre o motivo para o sucesso de Moyes: estar sempre informado sobre tudo, revisar dados, estar seguro dos dados e não apenas imaginando’.

Alguns treinadores pregam lealdade. Moyes a pratica. O próximo quadro é um atestado de fé nas pessoas mais próximas a ele. Contém preferências pessoais de jogadores da Premier League que não estão nos outros quadros. Eles devem ter menos de 26 anos, estarem atuando por equipe fora do top 6 e serem vistos como alvos possíveis de serem contratados.  Foram votados por Moyes e seu estafe. Quatro jogadores, entre os quase 20 escolhidos, foram escolhas unânimes.

O outro quadro mostra o quanto a velocidade é terrível no futebol. Condensa uma projeção das próximas três temporadas do Everton e qual time, teoricamente, poderá ser colocado em campo no esquema de jogo preferido pelo treinador. É um exercício de futurologia.  Por isso, a sala secreta é proibida para os jogadores. É, em essência, um mapa da mente de Moyes. Contém também a lista de todos os nomes do elenco principal, com idades, detalhes do contrato e estatísticas.

Começa com a ideia de Moyes sobre qual é o melhor time titular possível e  qual será o até 2014. Oferece um insight sobre quais titulares ele suspeita que vão cair de rendimento e quem espera que vai despontar. É uma ciência imprecisa porque mexe com o imponderável, mas é ferramenta visiual na arte negra do management, de mover um jogador quando o seu uso se exauriu, mas o potencial de venda ainda é significante.

Moyes não partilha a visão elitista de que a qualidade dos atletas da Football League  decaiu tanto que não vale a observação. Sua personalidade foi formada nas divisões menores e ele mantém a fé na habilidade de desenvolver talentos. Há outro quadro, menor, que contém jogadores abaixo dos 23 anos. O que de melhor, teoricamente, a Championship, League One e Two têm a oferecer, estão sublinhados em azul, vermelho e verde, respectivamente.

O último grande quadro, a lista da janela de transferência, é, em várias formas, a mais importante. Tem os nomes dos jogadores que o Everton está ativamente tentando contratar. É a mais confusa porque vários nomes foram escritos, apagados, depois escritos de novo durante o ritual de cortejar atletas, clubes, empresários e outros envolvidos. O elemento humano será sempre o mais importante. Reconhecimento da capacidade das pessoas que trabalham com você é fundamental. Moyes confia nos seus contatos, sejam eles boleiros, assistentes-técnicos ou treinadores. Agentes são considerados mais úteis no mercado da América do Sul, onde o partilhamento dos direitos dos jogadores pode tornar tudo muito complicado.”

Smith reflete sobre isso. ‘O mundo está mundando. Antigamente, parecia que todas as negociações eram concluídas entre baforadas de cigarros. A velha guarda de scouts iria a uma partida e daria apenas uma olhada, a não ser que houvesse um jogador específico a ser analisado. Ele então conversaria com o chefe dos scouts pelo telefone e diria o que achou. As informações estavam armazenadas apenas nas cabeças das pessoas.’

‘Bem, eles achavam assim. Não era, realmente, porque você não pode guardar tudo na mente, pode? Isso é porque relatórios se tornaram tão fundamentais. É propriedade intelectual. A informação pertence ao Everton porque foi conseguida por pessoas pagas pelo Everton. Gente que trabalha para o Everton. Pelo sistema da velha guarda, não havia continuidade. Se ele é atropelado pelo ônibus, a informação que possui, vai embora. Sei que estou rindo dessa possibilidade, mas tivemos um problema parecido nas categorias de base muitos anos atrás. O chefe do recrutamento saiu do clube e não havia nada. Não tínhamos tem mesmo os números de telefones dos scouts! Um dono de empresa, um CEO não toleraria uma coisa dessas nos dias atuais’.

Algumas coisas, nunca mudam. Grandes clubes são moldados na imagem de grandes treinadores. É muito simplista ver Moyes como mero autocrata, com a inflexibilidade implícita nisso. Como seu mentor Sir Alex Ferguson, ele transmite poder decisivamente, mas sensitivamente. Ele está confortável com a com grandes responsabilidades – de fato, ele exige tê-las – mas a natureza democrática da política de recrutamento do Everton nos informa sobre o homem. E sobre o clube que ele criou.”

O livro Nowhere Men pode ser encontrado aqui.

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