A história esquecida de…os primeiros Fergie’s Fledglings

Tradução de excelente artigo publicado pelo The Guardian e escrito por Rob Smith.

 

Para os fãs de qualquer outro clube do planeta, um torcedor do Manchester United reclamando dos seus jogadores deve ser visto como uma mulher com um presunto da Virgínia debaixo do braço cantando o blues “cause she’s got no bread”. O que teria para reclamar? Mas no final dos anos 80, Old Trafford era um lugar frio e escuro. United era um time sem esperança, o velho Alex Ferguson parecia não saber o que fazer e não havia sequer a conhecida compensação de sucesso em copas nacionais ou aquele ar de superioridade: o futebol em oferta não era sexy, mas Sextonian (em alusão ao ex-treinador Dave Sexton). Não tendo terminado na parte baixa da tabela nenhuma vez desde que voltou à divisão de elite, em 1975, o Manchester United havia conseguido essa façanha três vezes nos quatro anos anteriores. Entre essas, a equipe terminou em segundo em 1987-1988, mas ela nunca esteve de verdade na briga pelo título.

Até a catalisadora vitória na FA Cup de 1990, os únicos instantes de alegria vieram em Janeiro de 1989. Um grupo de garotos, promovidos ao time principal quando um já anoréxico elenco foi diminuído por contusões, injetou serotonina em um clube deprimido com algumas intrépidas atuações, mais notadamente há exatos 20 anos, quando o então campeão Liverpool foi esmagado em rede nacional.

Havia Lee Sharpe, 17, naquele momento um lateral-esquerdo livre e começando a amadurecer; Russel Beardsmore, 20, um desajeitado garoto que fazia travessuras como winger pela direita; Lee Martin, 20, uma cabeça madura sobre os ombros de um jovem lateral; Mark Robbins, 19, um sobrenatural e frio finalizador que pouco depois seria comparado a Jimmy Greaves pelo próprio Guardian; Tony Gill, 20, um esperto e streetwise jogador; Giuliano Maiorana, 19, um rápido winger esquerdo com um potente pé canhoto que faria David Mamet jogar futebol; e Deiniol Graham e David Wilson, ambos 19, e Derek Brazil, 20. A alegria deles infectou as arquibancadas e até a comissão técncia. Manchester United se tornou Feel Good Inc.

Para os padrões modernos, o que esta primeira fornada dos  Fergie’s Fledglings conseguiu foi, na melhor das hipóteses, razoável e na pior das hipóteses, medíocre: uma vitória sobre o Liverpool e um famoso empate fora de casa contra… er, QPR na FA Cup. Mas aqueles eram tempos diferentes. Olheiros raramente se aventuravam em diferentes códigos postais, menos ainda países, então a disponibilidade de talento era mais restrita; e futebol realmente era um jogo de homens: jogadores jovens não deveriam ser vistos ou ouvidos. A Division One estava cheio de valentes veteranos que eram sinônimos de pragmatismo. Romance era um prêmio.

Que a rápida ascensão e queda dos Fergie’s Fledglings tenha sido tão romântica se deveu ao clube. A lenda dos Busby Babes significa que nenhum time está tão ligado ao sucesso da juventude quanto o United. O surgimento e hegemonia dos Babes seria recriado por Paul Scholes, David Beckham, Nick Butt e os Nevilles nos anos 90, mas alguns anos antes, aquele grupo era chamado de os novos Babes. Como Richard Kurt, cronista de todas as coisas relacionadas ao United escreveu no United We Stood: “o surgimento deles preencheu o desejo que vive em cada Red, um sentimento instigado nos torcedores desde os anos 50 e que ainda está lá… nada supera a excitação de assistir um jovem desconhecido, alimentado pelo United e pela ideologia Red Devil, entrando no time e ganhando seu espaço”.

Esse espaço foi primeiro conquistado no Boxing Day de 1988. A equipe havia ganhando apenas um dos 12 jogos da liga anteriores quando Berdsmore, fazendo sua estréia, inspirou uma enfática vitória sobre a nêmesis perene do Manchester United, Nottingham Forest. Aquilo não foi nada perto do atropelamento sobre o Liverpool seis dias depois. O time, contendo Sharpe, Martin, Beardsmore e Robins, surpreendeu com uma vitória por 3 a 1, respondendo ao gol de John Barnes aos 70 minutos, com três outros momentos sublimes no espaço de sete delirantes minutos. Quando Beardsmore anotou um sensacional terceiro gol, Brian Moore, comentando para a ITV, gritou “Você não pode acreditar nisso!”. Liverpool não era adversário amador e não perderia novamente fora de casa por nove meses e meio. A resposta dos torcedores do United foi mais parecida com algo tirado do filme nove semanas e meia de amor: é possível dizer que Old Trafford não teve uma atmosfera de jogo melhor desde então. Prawn sandwiches  definitivamente não estavam à venda naquele dia.

Beardsmore, também criador do primeiro gol, era quem mais chamava a atenção. Neste jornal, David Lacey escreveu que “poucos jovens vão se divertir tanto contra Liverpool em apenas seu segundo jogo como titular na liga”.

Seu segundo jogo completo pela FA Cup aconteceu 10 dias depois, quando  a garotada de Fergie tomou de assalto Shepherd’s Bush. Empates no campo do QPR normalmente não justificam a descrição de “épico”, mas este preciso jogo certamente merece. A esquadra de 13 jogadores incluía seis com menos de 21 anos. Um deles, Gill, marcou um esplendido gol de empate e outro, Graham, deu ao United a liderança na prorrogação antes de Alan McDonald anotar o tento de empate no último minuto. “Os garotos”, escreveu Ferguson anos depois, “tiveram a field day”.  

Gill marcou de novo três dias depois, em uma vitória por 3 a 0 sobre o Milwall pela Division One. Foi o primeiro de sete triunfos em oito jogos que colocou o United na briga pelo título e nas quartas-de-final da FA Cup, um senso de destino associado à impressiva forma dos jogadores descobertos por Ferguson. Mas cada vez mais os jovens foram marginalizados pelo retorno dos titulares que estavam contundidos. Quando a sequência positiva acabou com derrota contra o Norwich em 25 de fevereiro (e também a busca pelo improvável título), Sharpe era o único integrante do time com menos de 25 anos. A equipe foi eliminada da FA Cup duas semanas depois em uma polêmica derrota em casa para o Forest e a temporada terminou miseravelmente no que Kurt descreveu como “nada niilista”. Os eventos de janeiro pareceram apenas um sonho.

“Os meninos fizeram um esplêndido trabalho, ganhando tempo para a reestruturação que nos levou ao sucesso depois”, escreveu Ferguson e Just Champion de 1993. “O julgamento clínico nos novatos não era tão importante, na verdade. Eles eram o que o público queria no período de evolução do United. E eles responderam ao time com um real e indiscutível fervor”.

Aquela reestruturação veio no verão seguinte, quando Ferguson gastou £8.25m em cinco novos jogadores e os garotos foram empurrados ainda mais para trás na lista de preferidos. Alguns ainda tiveram sucesso significativo na carreira – os gols de Mark Robins contra Forest e Oldham ajudaram o United a chegar à final da FA Cup de 1990, que foi vencida de forma improvável por Martin, enquanto Sharpe foi o PFA Young Player of the Year de 1991 – mas nunca mais tiveram um senso coletivo de triunfo. E apenas Sharpe e Martin se tornaram consistentes titulares.

“Eu sei que muita gente pensa que eu deveria ter insistido mais com os garotos”, escreveu Ferguson em 1992, no 6 Years At United. “Eles tiveram chances graças à lesões mas quando os jogadores mais experientes recuperaram a forma, gradualmente os coloquei para jogar. Acredito que fiz a coisa certa. Fiquei extasiado pelos jovens mas não acho que eles eram bons o bastante para sustentar aquela boa sequência”.

No final, poucos podem argumentar quanto a isso. O primeiro da gangue a morrer, falando em futebol, foi Gill, que teve uma gave fratura de tornozelo em uma dividida com Bruan Laws, do Nottingham Forest, em Março de 1989. Ele nunca jogou novamente, mas Ferguson escreveu em 1992 que ele “undoubtely have made it”. Robins não conseguiu um lugar no time porque oferecia muito pouco além de sublimes finalizações e saiu para o Norwich em 1992. Beardsmore, disse Ferguson, era “um tremendamente talentoso pequeno jogador mas que não tinha a força para jogar no nosso nível todas as semanas”. Martin foi eventualmente suplantado por uma combinação de Clayton Blackmore, Denis Irwin e Paul Parker. “Mas se não fossem as lesões, tenho certeza que ele seria lateral da seleção”, escreveu Ferguson. Martin foi para o Celtic em 1994 mas logo voltou para casa.

Restou apenas Sharpe, que perdeu o caminho após alguns poucos gloriosos anos, apesar das tentativas de Ferguson de compensar a eventual perda de sua estonteante velocidade tornando-o em um jogador mais presente em todas as partes do campo. Ele foi o único do grupo a se tornar um jogador profissional reconhecidamente de alto nível e também o que conseguiu jogar por seu país. No fim, o United não ia ganhar qualquer coisa com aqueles garotos. Mas por um alegre mês, eles acalentaram o sonho do clube de conseguir algo que é ainda mais importante: redescobrir sua identidade.

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